sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Por que ler Tolkien? Qual é o grande mérito de O Senhor dos Anéis?


Essas são peguntas que já me fiz inúmeras vezes, e tenho as respostas muito claras para mim, mas de certa forma sempre foi muito difícil transformá-las em palavras, escrever algo sobre isso. Mas por que resolvi tocar neste assunto agora? Porque hoje me deparei com um texto, no blog "Meu cantinho literário" (originalmente publicado aqui), escrito por Rogério Lacaz-Ruiz que descreve de forma brilhante o que a literatura escrita por Tolkien representa.  Segue a reprodução do texto:

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Por que ler Tolkien?
Qual é o grande mérito de O Senhor dos Anéis?

Deus parece que brinca de esconde-esconde com o homem. Ainda que de forma imperfeita, os homens que viveram antes de Cristo criaram deuses e semi-deuses em suas mitologias, uma vez que não conheciam a Deus. Foi justamente esta uma das inspirações de Tolkien para os seus livros: esta "fantasia" do homem na procura do transcendente. O Senhor dos Anéis virou uma obra literária de referência, conquistando milhões de fãs no mundo inteiro. Na Inglaterra, por exemplo, a história que envolve magia e seres fantásticos só vende menos do que a Bíblia. Esta é a chamada no site Submarino para a obra mais conhecida de Tolkien. E onde está a magia destes seres fantásticos? Justamente naquilo que o autor de O Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien, chama de "sub-criação". Criar é um ato divino; sub-criar, um ato humano.
O exercício da sub-criação é uma realidade observada em todas as pessoas. Todas?! Sim, todas as pessoas podem sub-criar, de certa maneira, seus mundos. A criança cria o seu mundo, o mesmo ocorrendo com o jovem e o adulto.
O grande insight (compreensão clara da natureza íntima de uma coisa) de Tolkien ao escrever seus livros foi o de sub-criar um mundo com todos os detalhes. O autor dizia que, para escrever este tipo de história, é preciso fazer em primeiro lugar um mapa. Caso contrário seria impossível dar continuidade à história que escrevia. Dias e noites, órbitas das luas, distâncias percorridas pelos personagens, localização de cada personagem no tempo e no espaço, tudo isto é pensado pelo autor em cada página do seu livro. Os locais e personagens existem em harmonia no seu mundo sub-criado: a Terra Média. Esta perfeição é o grande atrativo de suas obras.
Mas para que fazer uma sub-criação? Por que criar um mundo novo? E o mais curioso, um mundo que não existiu, não existe, e provavelmente nunca existirá.
Ao criar um mundo, é preciso conhecer o homem, o bem o mal; a coragem e a covardia; a grandeza e a pequenez; no fundo, é preciso conhecer-se e conhecer o outro, a natureza das coisas. Ao longo da narração é possível participar da aventura em cada cena, ser um personagem, ser o pobre, ser o rico, ser o medroso, ser o paciente. Ler Tolkien é ler as nossas mentes, é refletir sobre nossas atitudes, nossa postura diante do mundo. Se alguém atuou assim na Terra Média, como atuaria eu nesta terra? Tolkien, de certa maneira, nos obriga a pensar, a buscar uma resposta para nossas vidas, e inclusive para a realidade da morte O homem pensa, raciocina, busca simplificar a vida. E, em um mundo fora do seu, permite que veja o seu mundo de fora para dentro.
Tolkien experimentou a vida em seus livros, e vivia a sua vida consigo mesmo e com os seus, e, por que não dizer, com Deus. Ao sub-criar, imaginava como Deus fez para criar e manter no ser cada coisa. Desta forma se enxergava a grandeza de Deus, sua infinitude, e nossa finitude. A fantasia não muda a natureza das coisas deste mundo, mas cria outro em que poderíamos viver. Isto é, cria um mundo em que as leis físicas, ainda que dando lugar ao estranho e ao maravilhoso, são coerentes e compreensíveis.
Ao sub-criar este mundo na mente, aprofunda-se na realidade humana, no conhecimento próprio, na existência das coisas, na grandeza e na pequenez do ser humano.
A leitura de Tolkien é um convite a viver o ato sub-criador com suas conseqüências: a compreensão da realidade e a alegria de descobrir no outro mundo criado, quem somos e o que estamos chamados a ser.
Quais as vantagens da sub-criação para a vida das pessoas? "Segundo Tolkien - nas palavras de um de seus biógrafos -, as obras nas quais o autor conseguiu uma sub-criação autêntica, como um mundo secundário, são supremas entre as do seu gênero porque oferecem ao leitor fantasia, recuperação, escape e consolação."
Fantasia é a arte sub-criadora em si; recuperação de voltar a uma visão clara: ver as coisas como realmente deveríamos vê-las; escape é uma fuga momentânea da realidade, do peso da vida, uma volta ao lar e aos sonhos da infância; e o consolo ao qual, de certa maneira, se assemelha a esperança: de que a nossa vida pode, como nos contos de fadas, ter o consolo de um final feliz.
Rogério Lacaz-Ruiz, para o Interprensa - Edição 65 - Ano VI . Março de 2003

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